sexta-feira, 4 de março de 2016

O VERBO FARTO E DIDÁTICO DO ACADÊMICO VIANNEY MESQUITA



Régis Kennedy Gondim Cruz*


A eloquência é uma pintura do pensamento. (BLAISE PASCAL).


Em algumas ocasiões, já tive a oportunidade de, tanto oral como textualmente, exprimir afeição pela escrita plural de Vianney Mesquita, manifesta em quase duas dezenas de livros – todos meus conhecidos - e noutros suportes de propagação escritural.
Aprecio o elo por ele procedido da palavra com a palavra. Aqui me reporto, em particular, a um escrito seu - ... E o Verbo se Fez Carne (Sobral: Edições UVA, 2004), onde traduz o Evangelista Lucas, ao transpor os versículos do “Médico de homens e de almas” para a linguagem versificada em estrofes de arte menor, conforme indica Sânzio de Azevedo (fui aluno dele nas Letras-UFC), chamado redondilho, medida usada por demais no Brasil, em particular no Nordeste, com a poesia de cordel, bem como é a configuração métrica do sonetilho – poema de catorze versos com pés de sete acentos.
Para mim, essa é sua produção maior, cuja feitura plástica à excelência, em teor quanto em forma, nos aproxima do Caminho, nos “ajunta ao Criador”, dele aqui incluindo paráfrase, quando se reportou à escritora Neide Azevedo Lopes, ao comentar sua Teoria dos Afetos; é um bem à Nação, de onde o oculto do Mistério se escondeu.
O Coautor do recentíssimo (2016) Contratualismo, Política e Educação (Gerardo Vasconcelos, Rui Martinho Rodrigues e Cândido Albuquerque – Edições UECE, 2016) descerra portas, procede a liames, dissipa dúvidas. Se mais autores houvessem retratado São Lucas como ele o fez, as veredas seriam mais direitas, aqui lembrando João Batista, Vox clamantis in deserto.
No ... E o Verbo se Fez Carne (2004), como aditou o Prof. Dr. Pe. Brendan Coleman McDonald, nas guarnições do livro, Mesquita deixou a Hermenêutica [...] com os exegetas e simplesmente apresentou lindas sextilhas de cunho setessilábico ao lado do texto original do Evangelista.
É um livro que deveria ter sido escrito pelo clero, o qual aproxima, amalgama e funde o homem com Deus.
Sou concorde em relação ao pensamento de mencionada poetisa Neide Lopes, para quem ... E o Verbo se Fez Carne em mim habitou [...] convidando-me ao ágape para desfrutar da farta mesa da sabedoria [...].




*O autor é docente das redes públicas estadual do Ceará e municipal de Fortaleza. Bacharel e pós-graduado em Letras pela Universidade Federal do Ceará.

terça-feira, 1 de março de 2016

Rápidas Notações à Excepcional Caligrafia de Aíla Sampaio





ARTIGO - Cultura Formal e Autodidaxia


Vianney Mesquita*

Sê ávido por saber e saberás.[ ISÓCRATES, retórico ateniense - 436 –338 a.C ].

Liminarmente, me remeto ao título destas notas e, sem conceder ao leitor o lance de me repreender por uma aplicação defeituosa, cumpre proceder a uma referência ao entendimento polissêmico do vocábulo. De procedência grega,kalligraphia, as, tem o senso de boasletras,textodequalidade, com elocução inventiva e estilo agradável e correto, em vez de meramente “letra bonita”, graficamente perfeita, como nos célebres SeteCadernos de caligrafia vertical, por Francisco Furtado Mendes Vianna, Edições Melhoramentos, vigentes do começo do século XX até, salvante engano, os anos de 1970.
 Reafirmo, constantemente, como bordão de um redondilho maior, e repito, qual num estribilho de ária religiosa, a noção de que só deve conduzir a palma aquele que a conquistou – Palmam qui meruit ferat – conforme a divisa da nossa Arcádia Nova Palmaciana.  Já se exprimia, no meu tempo de estudante secundarista, quando pratiquei caractere cursivo à Francisco Vianna, a conceição de o saber não se denotar por via de pressão osmótica, menos adentrar o raciocínio sob a mera comparência física, do pretendente ao conhecimento, a eventos de natureza cultural, científica e artística, ou onde quer que haja estesia em qualquer das seis artes.
Nas mais das vezes, a participação é descabida e a conquista sobra ética e deontologicamente defesa, lograda por meio de valimentos pessoais e importância socioeconômica do interessado, própria da óptica patrimonialista ainda vigente no Brasil desde a Colonização, a fim de aportar a silogeus e a circunstâncias prestigiosas especiais, desprovido do exigível atestado de valor.
Impende, em primeiro lugar, no decurso da normalidade existencial, a pessoa cumprir os curricula das escolas, acompanhá-los didaticamente, submetendo-se às avaliações ordinárias determinadas pelos organismos oficiais, a fim de auferir os conceitos acadêmicos (convém atentar para a noção de que acadêmico não é palavra unívoca, significativa apenas de ambiência universitária) – quer em estabelecimentos propedêuticos, secundários ou de formação superior - suficientes para se achegar a novos níveis de instrução formal, no estrito acompanhamento do estado d’arte dos conceitos que demanda receber.
É cediço, entretanto, o fato de muitas pessoas jamais terem experimentado a contingência de uma escola formal. Bastaram-se, entretanto, no exercício diuturno do autodidatismo, estudando sem orientação docente e desprovidos de estabelecimentos acadêmicos efetivos, de sorte a granjearem destaque absoluto na sociedade, em vários campos, como ocorreu, verbi gratia, com o nosso Machado de Assis e o escritor lusitano José Saramago, exemplos oferecidos, de caso pensado, para não sair do terreno das letras.
 Em razão, entretanto, de incontáveis conhecimentos transferidos pelas ciências e técnicas deixarem labilmente de viger, rendidos por outros mais proveitosos (muita vez, enganosamente) aos seres humanos, parece ideal adotar a instrução continuada, sob aperfeiçoamento perene, em persecução às circunstâncias d’arte e aos estados da questão, no concerto de programas stricto e lato sensu nas universidades e institutos de pesquisa, com vistas a conservar a atualização constante, para compensar as perdas, nomeadamenteaquelas forçadas pela massificação, via indústria cultural, tão execrada por Theodor Wiesengrund Adorno e Marx Horkheimer, os maiores expoentes da Escola de Frankfurt, em suas principais vertentes de exame.
O expediente da autodidaxia, porém, é o aconselhável, desde que o consulente logre enxergar a axiologia do assunto sob exame, por meio de um suporte informacional - adotando-o, por consultar-lhe os interesses, ou o abandonando, porquenele não divisa nenhum proveito. Em todas as situações, aliás, é o meio recomendado, pois até o currículo escolar dos programas ordinários de ensino em todos os graus jamais alcança cobrir inteiramente o espectro de conhecimentos, com nuanças e peculiaridades, de modo a serem estritamente necessárias reflexões ancilares com o escopo dese aproximar, quanto mais melhor, da informação da qual se intenta dispor.
Quem não exercita o estudo regular, tampouco se adestrana leitura nem estimula a curiosice diletante e, por cima, ainda se arvora emocupar lugares de mulheres e homensapercebidos de obtenções intelectuais de peso, se comporta indignamente e, não raro, está sujeito a incorrer em vexames, quando suceder, por exemplo, de ser necessário demonstrar o status de que é formalmente portador.
Esta reflexão, procedida repetidas vezes, libelo aos sodalícios recipiendários de congregados dessa marca, não cabe, no que de negativo, nas medidas de muitos literatos cearenses, alguns dos quais ainda de fora das academias e sociedades literárias, científicas e artísticas do Ceará.
 É o caso, e.g.,da escritora AílaMariaLeiteSampaio, que alberga estas notas, pajem de invejável cultura formal em escolas de excelente padrão e partidária do preparo auxiliar por via da diuturna autodidaxia, sendo,ipso facto e por enorme merecimento, imortal titular da Cadeira 21 da Academia Cearense da Língua Portuguesa, competente operadora do batente professoral universitário, transitada pelos melhores programas acadêmicos em sentidos largo e estreito.
 A Escritora caririense, autora de Desesperadamente Nua (1987) e Amálgama (2001), é contista da melhor felpa – casta bem difícil de operar, notadamente no que diz respeito à originalidade e às tramas rápidas - cronista de alteado valor, poetisa de veio distinto e fino lavor, original, ao ponto de alguém, como eu, que priva dos seus escritos reconhecê-la até num texto não assinado, tal exprime o seu estro regular e agradável, sem as simplicidades indigentes da elocução, tampouco os voos exagerados dos poetas albatrozes das estâncias cifradas e ilegíveis.
Da sua produção constante (não há escritor sem produto),ressai o texto ensaístico, decerto pelo fato de que, tendo por ofício ministrar conteúdos de Letras e teores de redação em Língua Portuguesa, necessita de incessante efetividade em relação aos feitos desses misteres, de modo a ter sido o ensaio literocientífico o gênero eleito para se adestrar à proporção do tempo.
Ocorreu de ser, então, este o jaez literárioaproveitado para trazer ao lume sua Magnum opus, moto desenvolvido com esplendor n’Os Fantásticos Mistérios de Lygia, escrito básico da dissertação de mestrado, sustentada,sumacumlaude,na Universidade Federal do Ceará. Publicado pela Expressão Gráfica e Editora – e acerca do qual pretendo ainda oportunamente fazer glosa –nele Aíla Sampaio perlustra a obra de Lygia Fagundes Telles, mormente no vigor dos motivos fantásticos que emolduram parte da produção da escritora e jurista paulistana, hoje com 92 anos (19 de abril de 1923).
A Autora, que também assinaDe Olhos Entreabertos (2012) e cujo patrono na Academia Cearense da Língua Portuguesa é o gramático José Marques da Cruz, tem produção multímoda, como já adiantei, e, conquanto tenha elegido o ensaio para tornear, pratica versos brancos maravilhosos e a crônica e o conto e o poema, num estilo alegre e faustoso sob o prisma de emprego da língua, sem descer ao vulgo nem se dissipar nos páramos do inexprimível, onde costuma se perder o leitor.
Seu produto de prima qualidade, de poetisa feliz, é exibido, sempre com novidades, suas e de outros autores, no blog http://literail.blogspot.com.br
Sem dúvida, será providência salutar o consulente lhe experimentar o acesso e comprovar a estesia dos expedientes informáticos emoldurando a magnificência dos seus escritos.







domingo, 27 de dezembro de 2015

NEIDE AZEVEDO LOPES E SEU SISTEMA DE AFETOS



Vianney Mesquita*

No momento em que cedemos aos AFETOS, a Terra se metamorfoseia; já não há inverno nem noite, e tudo – tragédias, tédios e deveres – desaparece. (Ralph Waldo EMERSON. * Boston-Mass., 25.05.1803; + Concord-Mass., 27.04.1882).

No Domingo da Divina Misericórdia, caído no dia 11 de abril de 2010, há exatos cinco anos, experimentei a delícia de ler um mimo do Criador, obsequiado à imensa poetisa Neide Azevedo Lopes, logo a mim por ela substabelecido.
A Quadra Pascal ora vivida, a terminar do Dia de Pentecoste, é espiritualmente propícia para se apreciar arte tão edificante, a fim de se teorizar e, em especial, praticar metros e simpatias, como faz a autora de Teoria dos Afetos, desde que adquiriu uso da razão, quando sua vida passou a coincidir com uma rima rica.
Neide Azevedo Lopes fez-me evocar a saudosa poetisa piauiense Sônia Leal Freitas, no Cedro do Éden, monumental obra por mim comentada no texto das suas guarnições em 2002, a rogo seu, após lhe proceder à revista textual e gramatical.
Na Teoria (e na prática, também) dos Afetos, quedo pasmado, como a relembrar o Metal Rosiclerde Cecília Meireles (1960), menos por identidade estilística e mais pelo esplendor vocabular e elevação ideativa, fluência e estro desdobrados, centuplicados a cada elaboração. Nalgumas passagens, Neide, denota, ainda, similitude com Gabriela Mistral (Lucila de Maria de el Perpétuo Socorro Godoy Alcayaga), Nobel de Lireratura (1945), no seu Ternura, enquanto noutras estâncias aparece, ainda, com a elevação comovente da Quarta Marquesa de Alorna (Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre).
Eu não tinha este rosto de hoje,/ Assim calmo, assim triste, assim magro [...] Eu não dei por esta mudança/ Tão simples, tão rápida, tão fácil. [...] – Em que espelho ficou perdida a minha face? (Cecília Meireles).
Senhor! Tu que ensinaste, perdoa que eu ensine; que leve o nome de professora, que Tu levaste sobre a Terra ... (Oração da ProfessoraGabriela Mistral).
Se me aparto de ti, Deus de bondade,/ Que ausência tão cruel!/ Que me leva a um abismo tão terrível/ O pendor infeliz da humanidade (M.A. Obras poéticas da Marquesa de Alorna1844).
Pelo fato de bem o saber, Neide Azevedo Lopes emprega, com propriedade, graça e exatidão, os expedientes figurais admissíveis na poesia, aformoseando superfluamente o encantamento de suas composições. E assim, tomada por um enlevo anímico, veemência dos escolhidos, se achega ao Ressuscitado, para o Qual também solicita o leitor a rezar, ao apreciar suas esmeradas produções.
Tal como sucede com a saudosíssima poetisa Sônia Leal Freitas (Deus a tenha em Sua glória!), sua originalidade e inspiração multíplice de elaborar representações, conformando-as extraordinariamente à Dulcisonam et canoram Linguam Cano, parecem acercá-la de Florbela Espanca (Flor Bela d’Alma da Conceição Espanca), em Alma daConceição, Livro das Mágoas e Charneca em Flor.
A ave da noite rasga a tenda do meu abrigo / e despeja um grito estreito, longo, a língua do punhal./ Caminho dentro dele um corredor comprido sem fim e sem saídas./ Invento a minha fuga e salto dentro do vulcão medonho/ que me vomita em postas. (Sônia Leal Freitas).
Saudades! Sim ... Talvez ... E por que não? ... Se o sonho foi tão alto e forte./ Que pensara vê-lo até à morte/ Deslumbrar-me de luz o coração! / Esquecer? Para quê? Ah, como é vão! Que tudo isso, A ... (FlorbelaEspanca).
Também os efeitos imprimidos nas expressões de musicalidade do seu metro me conduzem a evocar os rafaéis e michellângelos da Capela Sistina, bem assim a expressão da alma nacional da Galícia, de Rosalía de Castro Murguía (cuja casa, em Padrón-A Coruña-Espanha, tive a ventura de conhecer) nseu O Cavaleiro de Botas Azuis, bem como neste excerto de poema, transferido ao leitor em língua nacional galega:
Cantares Galegos
Adiós, rios, adiós fontes/ adiós, regatos pequenos (sic) /adiós, vista dos meus ollos:/ non sei cando nos veremos.
Miña terra, miña terra/ terra donde me eu criei/ hortiña que quero tanto/ Figueiriñas que prantei.
A imortal NEIDE AZEVEDO LOPES, ex-presidente da Academia Cearense de Língua Portuguesa, perfaz uma estrofe perfeita em estâncias de dez ictos do soneto de grade petrarcana, a exornar a poética tematicamente múltipla, de estética inexcedível, beleza desigual, em proporção direita à magnificência de sua adorável pessoa.


*Texto aumentado de Arquiteto a posteriori. Fortaleza: Imprensa Universitária da UFC, 2013. Versão escrita em 11 de abril de 2015.





U N I V E R S I D A D E Manancial de Fé


Vianney Mesquita*

Não aprovo absolutamente o conceito a exigir que uma pessoa saiba um pouco de tudo. Saber superficialmente é conhecer quase sempre inutilmente, e, às vezes, perniciosamente. (LUCAS DE CLAPIERS, Marquês de Vauvernagues. (06.08.1715 – 28.05.1747 – 32 anos).

Muito afamada sentença do insuperável poeta indiano Rabindranath Tagore, o Gurudev (Calcutá, 07.05.1861 – 07.08.1941- 80 anos), poder-nos-á propor uma símile da Universidade – no seu perfil brasileiro de hoje – reclamada, açulada, combatida, invejada e insultada: O eco zomba de sua procedência somente a fim de provar ser ele o original.
Parece dar-se de ser, também, exatamente esta a reflexão diuturna da origem acadêmica, em toda repetição, invitando a originalidade, no desprezo de cada experiência, nas mais das vezes ao desconsiderar os valores agregados no longo e penoso curso de seu exercício.
Neste senso, o som multiplicado, figurativamente reproduzido, eo ipso, significa o referencial de procedência, o sítio desde onde a Instituição se há que dirigir.
Divisada com suporte nesta figura da literatura bengali, salvante aquela postada como excesso de criações irresponsáveis dos derradeiros tempos, a Universidade – me reporto em especial às da União e aos institutos federais - se exprime inovada, exaustivamente estudada, experimentada, revolvida nos seus inumeráveis conceitos. Defeso, contudo, tal como sucede no tropo tagoreano, é postegar a base acumulada de suas experimentações, como tributária da comunidade que a preparou. Não seria suficiente afastar conceitos, como se todos resultassem anacrônicos, e industriar concepções criativas, a fim de estabelecer o absolutamente novo, no que se não pode cogitar. Todo novo vem de um ovo – é um aforismo popular.
O que nos cumpre, a nós estudantes, servidores e docentes, envolvidos numa densa massa de incompreensões e malquerença de setores da sociedade nacional, em que se inclui de modo lamentável o Governo, é cuidar para que nossa responsabilidade se não possa esvair, arrastada pela onda de pessimismo e míngua de fé relativamente ao poderio do Estado, configurado na instituição acadêmica, e à inteligência do cidadão. 
Cada escorrego, pois, deverá constituir empenho para outra escalada. Que toda claudicância enseje nova investida, considerando a máxima camoniana segundo a qual É fraqueza desistir da coisa começada, no exercício de uma democracia limpa, cristalina, respeitosa e esquerda aos excessos tão comuns nas suas diversas compreensões.
Legitimamente, ao apagar do lume solar de 2015, no status quo sob curso e premidos por escândalos de mensuração custosa, convenhamos, é difícil raciocinar positivamente. Passada, entretanto, a borrasca, ao hálito brando do zéfiro de uma democracia circunspecta, impende-nos a todos incutir na sociedade brasileira a verdade consoante a qual é possível reverter o quadro, mal bosquejado, do desenvolvimento e da comodidade nacionais no trânsito pela intelligentsia latente da Universidade.
É de nosso cometimento fortalecer a pesquisa para produção de ciência e tecnologia, sem, contudo, preterir o pensamento, tampouco esconder a arte, estimulando a poética e considerando as humanidades, numa movimentação anímica, para o exercício continuado da vida em todas as suas facetas lícitas e salutares.
A vitalidade da Academia repousa na sua prática e no automovimento. Não é coisa estanque, que se baste periodicamente. A propósito, o professor estadunidense de Harvard, Henry Brooks Adams, expressou, com propriedade e nexo, que não haver algo ... que mais assombre na Educação do que a quantidade de ignorância que ela acumula sob a forma de fatos inertes.
Conforme é a vida, a Universidade resulta processual, motora e receptora, produz e acolhe, ensina e aprende, aproveita, inova, progride e retorna para se avaliar e perlustrar sua trajetória, a qual há de ser triunfante.
Todos somos contrários à curvatura, em virtude das dificuldades momentâneas. Preferimos obedecer à famosa parêmia latina – Flexo, sed non frango - pois, envergando sem se quebrar, votamos pelo desafioA administração inteligente e corajosa das crises traz sempre soluções de vanguarda, e disso a letra da História é repleta. Serão desnecessárias a desobediência civil e a bravura indômita e inconsequente. O repto consta principalmente da decisão de fazer por caminhos inteligentes e meios pacíficos.
É inteligente e pacífico cobrar sempre dos órgãos oficiais – e publicamente – posições relativas à Educação. Resta inteligente, pacífico, hábil e sereno, também,verberar de todas as tribunas os descasos dos mais elevados setores da Gestão Públicapara com o povo, a fim de comporem querelas políticas e individualismos partidários insatisfeitos, em detrimento da existência nacional, como se os grêmios não devessem servir à Sociedade.
É inteligente, pacífico, veemente e justo se empreender a defesa da Universidade das críticas de encomenda que lhes são impatrioticamente assacadas pelos portentos da numisma e partidários da ignorância – aqueles tão pobresque o bem único possuídoé o dinheiro – na esperança de que as IES se dobrem aos seus ataques e deixem de cumprir seu papel, ao abandonar projetos de excelência e retornar ao modelo de escolão de segundo grau, facilitando a sanha exploradora de quem interessa o marasmo e aproveita a paralisação do ensino, pesquisa e extensão. A crítica à “ineficiência” proclamada da Universidade é pérfida
Não é, porém, aceitável a pecha de desordenados, inoperantes e desleixados. Os erros são reconhecidos, grandes equívocos e omissões em boa parte. É confessado, no entanto, o fato de que, em meio a ondas de corrupção que grassa como lesa-pátria há longos e esticados anos, quase culturalmente arraigada na tradição administrativa brasileira oficial, sua Universidade Pública resta quase infensa aos tentáculos da desonestidade funcional, sujeita, com grande tranquilidade, às incessantes auditagens dos órgãos de controle das quatro esferas de Governo – União, Estados-Membros, Distrito Federal e Municípios – que, aliás, quase as não deixam trabalhar.
Sobra inteligente e pacífico e veemente e justo e urgente que se exija sejam as universidades públicas autônomas e continuem gratuitas. As instituições acadêmicas não podem se atrelar aos ditames exclusivos do Poder Central, pois ele a não conhece, e ser gratuita permanecerá como o grande dever do Estado.
Enfim, sobeja inteligente e justo que as instituições saibam valorizar seus recursos humanos, nas atividades-fim e meio, hoje amplamente qualificados, com mestrado e doutorado, a fim de que, unidos num só corpo, possam seguir com tranquilidade o seu caminho e firmar sua história, Sine ira et studio – “sem cólera nem parcialidade” – como tencionava Públio Cornélio Tácito (56–117) para sua Ciência Histórica.
Natal de luz, Nascimento de lucidez para o povo brasileiro.





MANUEL BANDEIRA Batista do Modernismo Nacional



Vianney Mesquita*

O poeta é como o Sol; o fogo que ele encerra é quem espalha a luz nessa amplidão sonora [...]Queimemo-nos a nós, iluminando a Terra! Somos lava, e a lava é quem produz a aurora! (ABÍLIO GUERRA JUNQUEIRO).

Perfaz-se no 2016 entrante (13 de outubro) o aniversário de 48 anos de passamento do festejado poeta recifense MANUEL Carneiro de Sousa BANDEIRA Filho, ocorrido no Rio de Janeiro, nato que foi na, Mauriceia, em 19 de abril de 1886.
MÁRIO Raul de Morais ANDRADE – nome completo para não se estabelecer embaraço com o agrônomo e escritor (*Fortaleza, 05.10.1910 – 05.02.44) Mário Kepler Sobreira de Andrade, o Mário de Andrade do Norte – chamou a Manuel Bandeira, e com muita propriedade, de São João Batista do Modernismo brasileiro, conquanto o extraordinário rapsodo de Libertinagem não haja participado da Semana da Arte Moderna, em fevereiro de 1922.
Ao polígrafo, musicólogo e crítico paulistano assistiam sobradas razões para anotar a denominação, porquanto Bandeira foi dos primeiros a escrever produções poemáticas em antecipação ao novo moto e renovado espírito da poética nacional, ao empregar o verso branco com excepcionais desenvoltura e beleza. Bem atestam esta asserção seus produtos anteriores a 22, especialmente Carnaval (1919 - quem não conhece “Os Sapos”?), uma das primeiras peças do movimento modernista.
Avesso ao “lirismo funcionário público” – decerto em alusão aos exageros oficiais da forma romântico-parnasiana – “ com livro de ponto e manifestações de apreço ao Sr. Diretor” – como ele próprio disse – preferiu aquele “difícil e pungente dos bêbados – o lirismo dos clowns de Shakespeare”.
Conforme exprime, entretanto, Otto Maria Carpeaux – em Origens e Fins, de 1943 – esse lirismo será revelado, além dos versos românticos, como em A Cinza das Horas. A força interventiva da inteligência crítica, batendo de frente com a sensibilidade analítica profundamente romântica de Bandeira, haverá de produzir o humor, o qual demarcará suas estrofescom a autoironiaconsoante ocorreu em Pneumotórax, contrapondo-se à selfpity do romantismo. Foi isso mesmo o que aconteceu.
Ressalte-se (quando do ensejo da comemoração dos seus 130 anos de nascimento, a ocorrer em 19 de abril do ano vindouro) o fato de que, sob ângulo novo, intocado pelas centenas de fontes que o já estudaram, no Brasil quanto no Exterior, é custoso discorrer a respeito do produto literário e acerca do invejável caráter do Vate pernambucano, este poeta da simplicidade, na vida e na poesia.
O que se pode e deve, ainda, dizer de Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho, sem se incomodar com a repetição dos torneios, noutras estruturas, mas com semelhante mensagem, é que seu ecletismo na senda literária – poesia, música, crônica, crítica, tradução, ensaio et reliqua – legou-nos a abundante e qualificada obra, tangida “[...] pelas velhas liras e harpas elegíacas do tempo em que as cruzes, os ciprestes, os rochedos e a lua pertenciam aos românticos”. (GRIECO, in MENEZES, Raimundo de.Dicionário Literário Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 1960, p. 162).
Pela relevância do Escritor pernambucano na literatura – vem de novo Carpeaux – e ele feito poeta, porém, não seria justo levá-lo a umplano menor, em razão da prosa cristalina dos seus ensaios, peças de crônicas e de memórias. Impõe-se destacar, também, completa o Crítico e jornalista austríaco, naturalizado brasileiro, sua produção como escritor didático em várias seletas e, acima de tudo, sua importância como tradutor de poesia, responsável pelas melhores versões de Johann Christian Friedrich Hoderlin, Friedrich Schiller, William Shakespeare [...] de Sóror Joana Inês de la Cruz e de Omar Khayann.(OP. CIT).
A extensão e a axiologia humanista-humanitária da produção de Manuel Bandeira configuram glória da espécie humana, das melhores obras de Deus, fortalecido (quem sabe) o seu espírito pela tísica que lhe assomou profunda aos tenros 17 anos, pela verdadeira peregrinação por Campanha, Petrópolis, Teresópolis, Fortaleza, Maranguape (Maracanaú), Uruquê e Quixeramobim; pelo retiro forçado a Clavadel, tudo aliado aos sucessivos passamentos de entes queridos de primeiro parentesco, ocorridos ao seu retorno ao País em 1914.
Em Clavadel – Suiça, o também letrista musical Bandeira – escreveu poemas para Francisco Mignone, Villa-Lobos, Ari Barroso, Camargo Guarnieri e outros – encontrou o escritor francês Paul Éluard, a quem nosso Poeta confessou dever “a revelação do amor à poesia e suas possibilidades”. (APUD MENEZES, ÍDEM).
Em tal acidentada e mórbida existência, que lhe educou o corpo ao clarificar o espírito, o bom aluno de João Ribeiro encontrou no Morro do Curvelo – Santa Tereza – Rio de Janeiro - o poeta Ribeiro Couto, com quem travou grande amizade.
Dele expressa Monteiro: porque era bom, “notável pela exemplaridade e singeleza [...] desinteressado dos bens materiais e voltado exclusivamente para os fins da criação literária”, o Autor de Vou-me embora pra Pasárgada em tudo bebia o bem e espalhava sua aura de bondade, sua habilidade, sua destreza em tanger a literatura com temas universais. É 

O poeta que brinca, o poeta que lança no ar, de vez em quando, um ou outro poema que é puro divertimento, é ao mesmo tempo aquele que tem dado à poesia brasileira algumas das notas de mais profunda ressonância, de mais amarga tristeza, e de mais séria contemplação da vida. (MONTEIRO, Adolfo Casais. Manuel Bandeira. Lisboa, s.ind. pg., 1943).

Viveu doente do corpo e saudável do espírito, com grande intensidade. Sua poesia é inspiração dos céus, é obra a perpassar o tempo tocando corações de todas as gerações. Sua extensa e eclética produção, versátil de sentimentos, temas e processos poéticos, é exemplo de tenacidade, inteligência e talento, de humanidade método, força de vontade e bonomia, qualidades em declínio nestes tempos difíceis, que nos tangem para distante da poesia, da lua, ciprestes e rochedos, a que aludiu Griecoem passagem anterior.
Não há quem logre, entretanto, nos tanger para longe de Libertinagem, para distante da Última Canção do Beco ... (MESQUITA, Vianney. In Impressões – Estudos de Literatura e Comunicação. Fortaleza: Agora, 1989. 175 pp).
Obrigado, poeta, sábio, semideus. Vamos de novo reler Profundamente, beber profundez nos seus ensaios, aprofundarmos nos seus conselhos, embelezarmos em suas estrofes. E aprendermos com sua vida.
Gratidão a você – Manuel Bandeira, do Brasil!